GENERAL PEZARAT CORREIA - JANTAR "EM ABRIL ESPERANÇAS MIL"

Minhas amigas e meus amigos!

Em primeiro lugar deixem-me agradecer à comissão promotora deste jantar o convite que me fizeram e a oportunidade que me deram de estar aqui convosco a reviver, mas nós estamos aqui com um lema que é “Em Abril Esperanças Mil”, e portanto, não estamos só a reviver, nós, ainda que muitos considerem que as utopias são inalcansáveis, nós consideramos que não, as utopias são um objectivo que justifica o caminho que se percorre para lá chegar, e portanto nós estamos aqui, não apenas a olhar para trás, estamos a olhar para o futuro, porque o futuro há-de ser dos objectivos que nós, desde o 25 de Abril, temos perseguido ainda que demorem algum tempo.

Eu subi a este palco, venho de muletas, e pode dar a imagem, ainda por cima anunciaram um Militar do 25 de Abril , que é o 25 de Abril que anda de muletas. De qualquer forma, eu posso-vos garantir, tenho essa esperança, que isto ainda não é estrutural, ainda não é da idade, o 25 de Abril ainda não está completamente velho, isto é apenas conjuntural, por isso isto é passageiro.

O 25 de Abril, na minha pessoa, porque eu não sou o 25 de Abril, está de muletas, é passageiro!
Felizmente nós temos connosco e bem, a participar aqui depois de nós, um médico, o Dr. Constantino Sakellarides, e se calhar hoje, o 25 de Abril precisa mais de um médico do que de um militar na reforma. De maneira que, tenhamos 6ambém esta esperança de quem vem depois de mim.

Aliás há aqui um outro aspecto curioso, eu peço-vos desculpa não pude aprofundar uma grande intervenção para hoje, para estar aqui convosco, venho aqui um pouco com tum coloquial, foram umas notas que eu tomei na cama do hospital, mas o que vos estou a dizer é sentido.

Reparem o Dr. Sakellarides tem um nome grego. A Grécia é hoje uma esperança. Esperanças Mil. Eu, pelo contrário, tenho um nome francês. Ora, da França de hoje não vem esperança nenhuma. A França identifica-se com o núcleo de uma União Europeia que é um colete de Forças. Mesmo com os socialistas no poder, veja-se no que deu: hoje a França parece só restar cerrar fileiras em torno do direita para travar o avanço da extrema direita. O socialismo, o partido socialista, o presidente da república francês é um socialista, digo eu, e isto que nos sirva de exemplo, porque nós também já conhecemos um pouco destas experiências.

Nós comemoramos hoje 41 anos do 25 de Abril e também comemoramos os 40 das primeiras eleições livres em Portugal. Lembram-se que lindo que foi? Eu recordo-me que, à preocupação de quem ia ganhar as eleições, as primeiras eleições em que eu tinha votado na minha vida, se sobrepunha a euforia só exercício do voto. Foi de facto aquele 25 de Abril de 1975, foi a festa do voto. E se me permite o Chico Buarque, eu diria: - Foi bonita a festa, pá! Foi muito bonita!
Lembram-se que votámos todos pelo socialismo. Lembram-se com certeza.
Uma pequenina resenha: A UDP elegeu um deputado “pelo socialismo revolucionário” (eu lembro-me destas palavras); o PCP elegeu um amplo grupo de deputados “pelo socialismo científico”; o MDP em nome da nossa memória da CDE teve deputados eleitos “pelo socialismo real”; o PS assegurou a maioria relativa em nome do “socialismo em liberdade”; o PPD, que era como na altura se chamava, conseguiu o segundo maior grupo parlamentar, em nome do “socialismo democrático”; e até o CDS, se bem se lembram, que ainda não tinha roubado o PP ao seu parceiro da actual maioria no poder, mas até o CDS proclamou “uma via socializante”, que era afinal uma via pela sua sobrevivência. Estavamos todos pelo socialismo! Todos!

A verdade é que a Constituição da República foi aprovada pelo socialismo. E ainda lá está!
Eu confesso que reconheço que está absolutamente fora do contexto. Tenho a consciência disso. Não estou a defender que se retire de lá, mas tenho essa consciência.
A verdade é que o termo foi tão usado, tão abusado, que se esgotou. E o pior é que com o termo também se esgotou o próprio conceito. 

Hoje recuámos uma geração e já é de novo em torno da defesa da democracia que nos encontramos.
É verdade que dantes também defendíamos a democracia, mas era uma democracia mais, era a democracia mais socialismo. Eu diria que exatamente o socialismo é só por si a democracia mais.
Hoje estamos remetidos à defesa da democracia “tout court”.
Isto não é uma figura de retórica. O exemplo vem-nos da Grécia que há bocado invoquei. Os gregos votaram livres e conscientes. Pois o que disseram os senhores da União Europeia: os gregos enganaram-se. E recomendaram aos eleitos pelo povo grego: vão dizer aos vossos eleitores que se enganaram e que vocês não vão poder fazer aquilo para que eles votaram.
Ora isto é a negação dos mais elementares princípios da democracia.
Os mais elementares princípios da democracia são: o respeito pelo voto, o direito dos povos a expressarem-se através do voto. Os povos expressam-se pelo voto e depois, há alguém, supra-poder que vem dizer vocês enganaram-se, os vossos eleitos não vão poder fazer aquilo para que vocês neles votaram.
Eu vou fazer uma confissão que dói, dói um pouco fazê-la.
Eu considero que a situação hoje na União Europeia lembra a lógica perversa dos regimes coloniais. Aliás, que nem era o caso português, era o caso dos regimes que eram democracias nas metrópoles, mas que eram ditaduras ferozes nas colónias. Esta era a lógica do sistema. Era em Inglaterra, era em França, era na Bélgica, noutras potências coloniais, em Portugal nem isso.
Ora, é assim na União Europeia de hoje!
Democracia no centro, no núcleo duro, mas na periferia, façam o que nós vos mandamos fazer.
Isto é a lógica de um regime colonial. Custa dizê-lo, porque nós hoje encontramo-nos nesta paráfrase da situação de colonizado.
Eu tenho muitas dúvidas de que nesta União Europeia possamos ter uma democracia plena.
Se amanhã os portugueses votarem por uma rutura, por uma solução à esquerda, o que é que vai acontecer?
Os nossos eleitos terão de ir pedir desculpa ao centro da União Europeia, porque os portugueses se enganaram? A questão é que estamos perante um paradoxo. Nós estamos perante uma não democracia, de facto.
Mas o problema, o paradoxo, é que é uma não democracia consentida. Porque de facto o poder que temos e que assim se submete foram os portugueses que o escolheram.
Eu não vim ser muito otimista, muito animador, mas precisava de ter este desabafo convosco.
É um desabafo de Abril, mas nós estamos aqui com o lema “Em Abril Esperanças Mil”. E então permita-me que vos evoque, para terminar, um dos últimos livros do Mia Couto, esse grande construtor da língua portuguesa, esse homem de uma imaginação fértil e de um grande humanismo, escreveu, o livro tem a data de 2009, tem o título “E se Obama fosse africano”, é uma reposição de vários textos a que ele chama “inter-invenções”, com os neologismos do Mia Couto, ele diz a determinada altura: - Na luta pelas nossas independências, era preciso esperança para ter coragem. Agora é preciso coragem para ter esperança!
Pois é! Também nós em Portugal, hoje, precisamos de coragem para ter esperança, a esperança que o 25 de Abril despertou em nós!

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