Testemunhos:  

HELENA ROSETA    

JOÃO MARIA FREITAS BRANCO

Teatro: Grupo de actores de "A BARRACA"

MOMENTO MUSICAL - FRANCISCO FANHAIS E VÍTOR SARMENTO

 
Um agradecimento especial à participação de Francisco Fanhais e Vítor Sarmento no Jantar "Em Abril Esperanças Mil" que nos trouxeram à memória as canções de intervenção ligadas ao 25 de Abril.
 
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PROF. CONSTANTINO SAKELLARIDES - JANTAR "EM ABRIL ESPERANÇAS MIL"

Muito boa noite a todos, obrigado pelo convite para estar convosco esta noite.

Gostaria para começar esta breve conversa de vos pedir que imaginem comigo esta sena:
Um dia o fundador do Serviço Nacional de Saúde teve uma muito improvável crise existencial e antes de submeter a lei do Serviço Nacional de Saúde ao Parlamento, resolveu perguntar aos poderes financeiros do tempo se era possível haver Serviço Nacional de Saúde em Portugal. Como devem imaginar a resposta foi: não. E a seguir a essa resposta veio a explicação, e a explicação veio nesta expressão emblemática do superiorismo financeiro: não há dinheiro!

Mas nesta expressão tão popular, é de facto a versão popular de um pensamento mais profundo, que é o seguinte: não há dinheiro para estas coisas!
Não há dinheiro para permitir que as pessoas tenham uma vida digna e protegida das ameaças que nos rodeiam todos os dias!

Não sei, se tiveram oportunidade de enfrentar este tipo de argumento na vossa vida habitual, se tiverem tenho um conselho para a resposta que podem dar, e a resposta que podem dar, foi dada há muitos anos em 1948 pelo fundador do serviço nacional de saúde inglês, que às questões do tempo, numa Inglaterra destruída pela guerra, numa Inglaterra super-individada, deu a seguinte resposta que vos leio: devemos estar orgulhosos pelo facto de, apesar das nossas dificuldades financeiras e económicas, termos sido capazes de fazer o que de mais civilizado há no mundo: pôr o bem-estar dos doentes acima de qualquer outra consideração! Isto foi dito há 50 anos e continua a ser absolutamente verdadeiro nos dias que correm.

Não havia dinheiro, não há dinheiro para estas coisas. Mas houve Serviço Nacional de Saúde, e de que maneira!
Estaremos todos de acordo que o Serviço Nacional de Saúde foi possivelmente o maior sucesso da democracia portuguesa!
E não nos esqueçamos, apesar das imensas provações que o Serviço Nacional de Saúde hoje sofre.
A Grécia, país hoje por boas razões muito em foco, não teve a mesma sorte.
E eu quero dizer algumas palavras sobre porque é que não teve a mesma sorte.

Como possivelmente adivinham pelo nome, sou de ascendência grega e o grego foi a minha primeira língua materna, portanto falo um grego familiar, simples, não erudito. Espero que não me peçam para dizer umas palavrinhas em grego. Mas por razões profissionais, visitei a grécia muitas vezes nos últimos seis anos. E visitei-a para, com colegas e amigos, vermos se seria possível também na Grécia haver um Serviço Nacional de Saúde. Possivelmente sabem que, também na Grécia, houve uma lei do Serviço Nacional de Saúde em 1983. E apesar de haver também uma lei, o que é que aconteceu? Nos primeiros anos fizeram centros de saúde nas zonas rurais da Grécia, financiados pelo orçamento geral do estado, e paulatinamente colocaram-se lá médicos, clínica geral, médicos de família. Hoje o movimento parou. Nunca chegou às cidades gregas. E temos esta situação, altamente invulgar, que é ter um Mini Serviço Nacional de Saúde no campo, financiado pelo orçamento geral do estado, com médicos de família, poucos, e nas cidades gregas continuarem a existir as Caixas de Previdência, as caixas que nós tivémos há 40 anos. Financiadas pela Segurança Social, com especialistas, com uma medicina que já não se pratica em qualquer país europeu avançado.

Pensem nas consequências disto. Um sistema financiado pela Segurança Social é um sistema ligado so trabalho. Quando uma pessoa perde o trabalho perde o acesso aos cuidados de saúde. E na Grécia durante os últimos anos, temos tido constantemente um nível de desemprego de 25% e possivelmente subestimado. Portanto, 25% da população grega perdeu o direito à saúde.

E o que é que aconteceu? Porque é que a Grécia não foi capaz de fazer um Serviço Nacional de Saúde? A explicação é relativamente simples e óbvia. É que a qualidade do sistema político grego considero equiparada a um gestor de um estado profundamente clientelar. Encontrou o seu equilíbrio assegurando-se as vantagens extrativas do clientelismo e em troca oferecendo a uma parte da população grega benesses pouco razoáveis, que em pouco contribuíram para o desenvolvimento do país. Essa é a explicação porque não foi possível instituir na Grécia o Serviço Nacional de Saúde.
E também é preciso acrescentar que durante estes anos, de incompetência clientelar, de incapacidade de pôr à frente do objetivo principal do governo o bem estar das pessoas, essa situação foi vista pela União Europeia com o maior conforto, com a maior simpatia, com o maior imobilismo, sem nunhuma crítica, ao contrário do que acontece nos últimos três meses. 

E as consequências são as que já sabem. Nós perdemos nos últimos anos quase 8% da nossa riqueza, os gregos perderam 25% da sua riqueza nos últimos anos.
Uma situação verdadeiramente dramática.
E agora ao novo governo grego coloca-se um tremendo desafio, atentem bem: desfazer estas raízes clientelares, este estado profundamente capturado por interesses outros que não os da população grega, numa Europa com duas faces: uma profundamente hostil, outra timorata e não solidária, fazer o mínimo. Esta é uma tarefa ciclópica.
Dificilmente os gregos a poderão realizar sozinhos, precisam da nossa ajuda.

Jean Claude Junker disse a um diário grego em Março de 2012 , dois anos depois do início do programa de ajustamento grego e um ano depois do início do programa de ajustamento português, o seguinte: “Os planos sugeridos à Grécia apostaram apenas no equilíbrio financeiro do país e não no crescimento, e isso foi uma falha, e esta estratégia explica em parte que o país esteja há cinco anos consecutivos em recessão na qual a economia decresceu 15% (nessa altura) e acrescenta, não houve abertura suficiente para procurar soluções alternativas.
Jean Claude Junker podia ter acrescentado nessa altura, o ajustamento de 3 anos imposto a Portugal à Irlanda e por maioria de razão à Grécia, foi também uma monstruosidade intelectual, técnica, política, ética e humana. 

Jean Claude Junker, político de longo curso, nunca disse como presidente do Eurogrupo o mesmo que disse a um jornal de Atenas. Se o dissesse possivelmente nunca teria sido eleito presidente da Comissão Europeia. Apesar disso, temos que reconhecer, que ultimamente tem procurado pôr outra vez a verdade em cima da mesa. Não sei com que força, não sei com que sustentabilidade isso será possível. 

Mas há uma coisa que me impressiona a mim particularmente na postura desta Europa empobrecida de valores que fizeram a sua grandeza, particularmente visível na Grécia de hoje, e que se pode resumir pela seguinte sentença:

É expressamente proibido experimentar outros caminhos que não aqueles que constam dos velhos mapas adoptados por poderes instituídos em estado de decrepitude democrática!
É expressamente proibido guiarmos-nos por GPS's cuja venda não esteja autorizada pelos Mercados Financeiros!
É expressamente proibido sulcar mares nunca dantes navegados!

Mas aqui estamos nós esta noite, Sr. General, verdadeiramente gratos, porque, apesar de todas as proibições os Capitães de Abril ousaram devolver-nos a liberdade!
Ousemos pois nós também experimentar outros caminhos!
25 de Abril Sempre!





GENERAL PEZARAT CORREIA - JANTAR "EM ABRIL ESPERANÇAS MIL"

Minhas amigas e meus amigos!

Em primeiro lugar deixem-me agradecer à comissão promotora deste jantar o convite que me fizeram e a oportunidade que me deram de estar aqui convosco a reviver, mas nós estamos aqui com um lema que é “Em Abril Esperanças Mil”, e portanto, não estamos só a reviver, nós, ainda que muitos considerem que as utopias são inalcansáveis, nós consideramos que não, as utopias são um objectivo que justifica o caminho que se percorre para lá chegar, e portanto nós estamos aqui, não apenas a olhar para trás, estamos a olhar para o futuro, porque o futuro há-de ser dos objectivos que nós, desde o 25 de Abril, temos perseguido ainda que demorem algum tempo.

Eu subi a este palco, venho de muletas, e pode dar a imagem, ainda por cima anunciaram um Militar do 25 de Abril , que é o 25 de Abril que anda de muletas. De qualquer forma, eu posso-vos garantir, tenho essa esperança, que isto ainda não é estrutural, ainda não é da idade, o 25 de Abril ainda não está completamente velho, isto é apenas conjuntural, por isso isto é passageiro.

O 25 de Abril, na minha pessoa, porque eu não sou o 25 de Abril, está de muletas, é passageiro!
Felizmente nós temos connosco e bem, a participar aqui depois de nós, um médico, o Dr. Constantino Sakellarides, e se calhar hoje, o 25 de Abril precisa mais de um médico do que de um militar na reforma. De maneira que, tenhamos 6ambém esta esperança de quem vem depois de mim.

Aliás há aqui um outro aspecto curioso, eu peço-vos desculpa não pude aprofundar uma grande intervenção para hoje, para estar aqui convosco, venho aqui um pouco com tum coloquial, foram umas notas que eu tomei na cama do hospital, mas o que vos estou a dizer é sentido.

Reparem o Dr. Sakellarides tem um nome grego. A Grécia é hoje uma esperança. Esperanças Mil. Eu, pelo contrário, tenho um nome francês. Ora, da França de hoje não vem esperança nenhuma. A França identifica-se com o núcleo de uma União Europeia que é um colete de Forças. Mesmo com os socialistas no poder, veja-se no que deu: hoje a França parece só restar cerrar fileiras em torno do direita para travar o avanço da extrema direita. O socialismo, o partido socialista, o presidente da república francês é um socialista, digo eu, e isto que nos sirva de exemplo, porque nós também já conhecemos um pouco destas experiências.

Nós comemoramos hoje 41 anos do 25 de Abril e também comemoramos os 40 das primeiras eleições livres em Portugal. Lembram-se que lindo que foi? Eu recordo-me que, à preocupação de quem ia ganhar as eleições, as primeiras eleições em que eu tinha votado na minha vida, se sobrepunha a euforia só exercício do voto. Foi de facto aquele 25 de Abril de 1975, foi a festa do voto. E se me permite o Chico Buarque, eu diria: - Foi bonita a festa, pá! Foi muito bonita!
Lembram-se que votámos todos pelo socialismo. Lembram-se com certeza.
Uma pequenina resenha: A UDP elegeu um deputado “pelo socialismo revolucionário” (eu lembro-me destas palavras); o PCP elegeu um amplo grupo de deputados “pelo socialismo científico”; o MDP em nome da nossa memória da CDE teve deputados eleitos “pelo socialismo real”; o PS assegurou a maioria relativa em nome do “socialismo em liberdade”; o PPD, que era como na altura se chamava, conseguiu o segundo maior grupo parlamentar, em nome do “socialismo democrático”; e até o CDS, se bem se lembram, que ainda não tinha roubado o PP ao seu parceiro da actual maioria no poder, mas até o CDS proclamou “uma via socializante”, que era afinal uma via pela sua sobrevivência. Estavamos todos pelo socialismo! Todos!

A verdade é que a Constituição da República foi aprovada pelo socialismo. E ainda lá está!
Eu confesso que reconheço que está absolutamente fora do contexto. Tenho a consciência disso. Não estou a defender que se retire de lá, mas tenho essa consciência.
A verdade é que o termo foi tão usado, tão abusado, que se esgotou. E o pior é que com o termo também se esgotou o próprio conceito. 

Hoje recuámos uma geração e já é de novo em torno da defesa da democracia que nos encontramos.
É verdade que dantes também defendíamos a democracia, mas era uma democracia mais, era a democracia mais socialismo. Eu diria que exatamente o socialismo é só por si a democracia mais.
Hoje estamos remetidos à defesa da democracia “tout court”.
Isto não é uma figura de retórica. O exemplo vem-nos da Grécia que há bocado invoquei. Os gregos votaram livres e conscientes. Pois o que disseram os senhores da União Europeia: os gregos enganaram-se. E recomendaram aos eleitos pelo povo grego: vão dizer aos vossos eleitores que se enganaram e que vocês não vão poder fazer aquilo para que eles votaram.
Ora isto é a negação dos mais elementares princípios da democracia.
Os mais elementares princípios da democracia são: o respeito pelo voto, o direito dos povos a expressarem-se através do voto. Os povos expressam-se pelo voto e depois, há alguém, supra-poder que vem dizer vocês enganaram-se, os vossos eleitos não vão poder fazer aquilo para que vocês neles votaram.
Eu vou fazer uma confissão que dói, dói um pouco fazê-la.
Eu considero que a situação hoje na União Europeia lembra a lógica perversa dos regimes coloniais. Aliás, que nem era o caso português, era o caso dos regimes que eram democracias nas metrópoles, mas que eram ditaduras ferozes nas colónias. Esta era a lógica do sistema. Era em Inglaterra, era em França, era na Bélgica, noutras potências coloniais, em Portugal nem isso.
Ora, é assim na União Europeia de hoje!
Democracia no centro, no núcleo duro, mas na periferia, façam o que nós vos mandamos fazer.
Isto é a lógica de um regime colonial. Custa dizê-lo, porque nós hoje encontramo-nos nesta paráfrase da situação de colonizado.
Eu tenho muitas dúvidas de que nesta União Europeia possamos ter uma democracia plena.
Se amanhã os portugueses votarem por uma rutura, por uma solução à esquerda, o que é que vai acontecer?
Os nossos eleitos terão de ir pedir desculpa ao centro da União Europeia, porque os portugueses se enganaram? A questão é que estamos perante um paradoxo. Nós estamos perante uma não democracia, de facto.
Mas o problema, o paradoxo, é que é uma não democracia consentida. Porque de facto o poder que temos e que assim se submete foram os portugueses que o escolheram.
Eu não vim ser muito otimista, muito animador, mas precisava de ter este desabafo convosco.
É um desabafo de Abril, mas nós estamos aqui com o lema “Em Abril Esperanças Mil”. E então permita-me que vos evoque, para terminar, um dos últimos livros do Mia Couto, esse grande construtor da língua portuguesa, esse homem de uma imaginação fértil e de um grande humanismo, escreveu, o livro tem a data de 2009, tem o título “E se Obama fosse africano”, é uma reposição de vários textos a que ele chama “inter-invenções”, com os neologismos do Mia Couto, ele diz a determinada altura: - Na luta pelas nossas independências, era preciso esperança para ter coragem. Agora é preciso coragem para ter esperança!
Pois é! Também nós em Portugal, hoje, precisamos de coragem para ter esperança, a esperança que o 25 de Abril despertou em nós!

PAULA CABEÇADAS - PELA ORGANIZAÇÃO DO JANTAR "EM ABRIL ESPERANÇAS MIL"


Paula Cabeçadas pela Organização do Jantar agradeceu o todos os que colaboraram e que participaram neste jantar referindo que – Aqui estão de pedra e cal para defender o 25 de Abril no jantar que contou com o maior número de pessoas até hoje.

Em Abril Esperanças Mil” é o mote do jantar que já tem uma história e que queremos manter.
Abril de 1974 trouxe a esperança a um país em ditadura, em guerra, atrasado económica e culturalmente. Todos os que nos últimos 41 anos viveram estes tempos, mais novos ou mais velhos, passaram por alegrias e tristezas, ânimo e decessão, desalento e esperança, tivemos momentos melhores e piores, mas nunca como nos últimos quatro anos vinvemos tempos de tanto sofrimento. Fome, desemprego, emigração, corrupção, desigualdade social, insolvência, falência e medo, muito medo. Os acontecimentos mundiais que vemos diariamente deixam-nos perplexos. 

O desenvolvimento da violência, da intolerância, os atos criminosos perpetrados em nome de religiões ou ideologias levam-nos a tempos que julgávamos não tornarem a poder existir. O racismo ressuscitou com violências antigas mas também com novos contornos difíceis de combater. Vivemos assim tempos extraordinários. Este é um ano muito importante para a União Europeia e para Portugal. 

Em primeiro lugar comemoramos os 40 anos das primeiras eleições livres no nosso país, depois de décadas de ditadura. Os deputados então eleitos tinham como0 missão construir uma nova constituição, de acordo com os princípios da revolução que tinha sido levada a cabo no ano anterior pelo MFA. Em segundo lugar, a União vai a votos, realizam-se eleições em vários países incluindo o nosso. Os nossos objetivos são claros: correr com a quadrilha de malfeitores que estiveram no poder nestes quatro anos e criar as condições para poder existir um governo de esquerda, que governe à esquerda, que não tenha medo da constituição e de tudo o que ela representa. É necessário um governo que não tenha medo do estado social, um governo que defenda os valores de Abril esperanças mil, Paz, Pão, Saúde, Habitação e Educação.

Um governo que não tenha medo de exigir à União Europeia a que aderimos aquilo que se espera dela: verdadeira solidariedade e igualdade entre os estados e não uma ditadura dos mais fortes sobre os mais fracos. Um governo que não se ponha em bicos dos pés perante os burocratas de Bruxelas e que saiba levantar a voz, e dizer que os portugueses, mesmo que sujeitos a regras, têm direito a decidir sobre o seu destino. 

As portas que Abril abriu não se fecharam. Mesmo com todos estes problemas estamos melhor do que há 41 anos. Muito melhor! Mas não podemos deixar de dizer que se perderam muitas coisas. Cabe-nos recuperá-las. Não deixar fechar essas portas. É esse o desafio de todos nós!
As nossas mil esperanças não morreram nem vão morrer!
Viva o 25 de Abril!”

AUGUSTA SOUSA - SAÚDE: COMO ESTAMOS E O QUE QUEREMOS


O CDA participou no Congresso Ruptura e Utopia para a Próxima Revolução Democrática” com 2 comunicações e intervenções.
Aqui destacamos a intervenção de Augusta Sousa


SAÚDE: COMO ESTAMOS E O QUE QUEREMOS


De forma sintética, procurou-se partilhar a reflexão do grupo d
a Saúde do Congresso Democrático das Alternativas, partindo de onde estamos para o que queremos.
A elevação significativa dos padrões de saúde da população portuguesa está diretamente relacionada com a melhoria das condições de vida e com a resposta oferecida pelo Serviço Nacional de Saúde. Esta melhoria dos padrões de saúde traduziu-se no facto de, entre 1970 e 2009, Portugal ter sido o país com o maior declínio da mortalidade infantil nos países da OCDE, o 2º com melhor evolução nos anos de vida potencial perdidos e um dos países com mais ganhos na esperança de vida.
Contudo, em 2014 são áreas de elevada preocupação as mortes por causas evitáveis, a esperança de vida sem incapacidade, as doenças crónicas, as desigualdades no acesso aos serviços e a redução substancial da despesa pública, com simultâneo aumento da despesa privada.
Reafirmamos que a saúde é um bem de mérito onde a mercantilização tem de ser rejeitada e que é imperativo que os cidadãos se apropriem do SNS para garantir a sua defesa.
Consideramos que só os valores do Serviço Nacional de Saúde garantem a necessária proteção da saúde e prevenção da doença para todos, nomeadamente ser:
Universal e de acesso equitativo
Essencialmente público, baseado em princípios de solidariedade social
De qualidade, compreensivo e com continuidade de cuidados
Descentralizado e participado
Assumindo estes pressupostos, é imperativo atuar sobre os determinantes sociais, dando ênfase ao papel da comunidade local e à criação de um novo modelo de serviços com autonomia.
Apostar num novo modelo de serviços, com uma rede hospitalar reorganizada e com uma forte articulação com os Cuidados de Saúde Primários e com os Cuidados Continuados Integrados, só pode ser assegurado com uma governação participada a todos os níveis e com autonomia de gestão, com base na contratualização assente em processos transparentes e responsabilizador.
O financiamento deve ser estável e previsível, plurianual. Os profissionais devem estar inseridos em carreiras estáveis e exigentes e justamente remunerados.
Constata-se que, nos nos últimos anos, foram criadas as condições para o setor privado passar a ser substitutivo do SNS. É essencial:
combater a transferência dos recursos do SNS para outros setores e a criação de incentivos para os cidadãos deixarem de recorrer ao serviço público
combater a fragmentação e a segmentação induzidas pela concorrência
mapear o que está instalado e definir claramente as áreas contratadas / a contratar com o setor privado e o setor social
regular o setor privado, que tem que ter as mesmas exigências operacionais das organizações do SNS
garantir carreiras e condições de trabalho em todas as instituições
Mas é também fundamental travar e reverter o desinvestimento e mudar o modelo de prioridades, ou seja, atender a necessidades do ciclo vital, a ganhos na saúde, ao nível de atividade e à prioridade ao investimento na comunidade.

Em conclusão afirmamos:
Existe uma associação entre os indicadores de saúde e os recursos da comunidade e os recursos biomédicos. Sem desprezar os últimos, são os recursos da comunidade que mais influenciam a esperança de vida e a esperança de vida sem incapacidade, sendo ambos igualmente importantes para a mortalidade infantil (cf. Justo, Cipriano, 2014).
Assim, importa repensar um nova geografia organizacional assente nas dinâmicas loco-regionais com soluções partilhadas, baseada em 3 vertentes:
A identificação das necessidades em saúde de uma população geodemograficamente identificada
A governação loco-regional com autonomia e participação
Uma coordenação que garanta a articulação / integração de recursos

SÉRGIO MANSO PINHEIRO - A URGÊNCIA DA DEMOCRACIA

O CDA participou no Congresso Ruptura e Utopia para a Próxima Revolução Democrática” com 2 comunicações e intervenções.
 
Aqui destacamos a intervenção de Sérgio Manso Pinheiro:

A URGÊNCIA DA DEMOCRACIA

Impunha-se revisitar o capítulo sobre a «democracia plena, participada e transparente» da Declaração do Congresso Democrático das Alternativas aprovada em 5 de Outubro de 2012.
Um País com serviços públicos debilitados é um Estado cativo dos interesses dos mais fortes e uma porta escancarada para a corrupção. Um governo que impõe medidas que prometeu eleitoralmente não implementar e um Presidente passivo degradam a democracia e a confiança no sistema partidário. Ainda assim, o Tribunal Constitucional demonstrou que o regime não se desintegrou.
As tecnologias de informação e comunicação estão a alterar as relações sociais e pessoais. O imediatismo e a potencialidade de tornar global cada gesto e vontade constituem uma nova realidade.
O regime terá que evoluir salvaguardando que independentemente de quem exerça em cada momento as funções de gestão da coisa pública não ficam em causa nem os direitos e garantias individuais nem a representatividade da vontade colectiva.
A democracia tem que ser um regime continuo e não um fenómeno episódico com data marcada para cada 4 anos. A participação tem que ser activamente promovida.
A Declaração aprovada no Congresso identifica, neste capítulo, 19 propostas que valorizam o reforço da participação, da transparência e fiscalização e do combate à corrupção.
Importando relê-las na integra, podemos aqui agrega-las em 3 alicerces:
  1. ¾     qualificação dos serviços públicos e reforço da sua proteção face a outros interesses;
  2. ¾     prestação pública de contas e responsabilidade política; e
  3. ¾     participação e cidadania.
A vida e a democracia pedem sobressaltos. A nossa ânsia de transformação pede celeridade.

"CONGRESSO RUPTURA E UTOPIA PARA A PRÓXIMA REVOLUÇÃO DEMOCRÁTICA"

      Cidadania – Texto da Associação 25 de Abril

A Associação 25 de Abril (A25A) convocou o “Congresso Ruptura e Utopia para a Próxima Revolução Democrática”, nos dias 13 e 14 de Março de 2015, na Fundação Gulbenkian, em Lisboa.
A iniciativa encerrou o programa de comemorações do 25 de Abril de 1974 e teve por principal objectivo constituir um momento inspirador da participação dos cidadãos capaz de os conduzir à utopia de uma revolução democrática eivada dos genuínos valores de Abril.

Ao apelo da A25A responderem jovens, homens e mulheres de pensamento livre que, durante dois dias, se entregaram numa jornada generosa de reflexão e partilha de experiência múltiplas, em torno de três painéis de debate: “Regeneração do Sistema Político” (A participação cidadã e os movimentos sociais; A abertura dos partidos políticos e o fim do seu monopólio; A lei eleitoral e a lei dos partidos políticos; A inovação politica na Europa; A corrupção, a ética e a justiça; A supremacia do poder democrático sobre os outros poderes); “Rumo Estratégico para Portugal” (Uma estratégia de ruptura progressista para Portugal; Os grandes espaços políticos e as alianças: a União Europeia, o espaço atlântico e a lusofonia); e “Recuperação da Economia Devolver a Esperança e Preparar o Futuro” (A Reestruturação da dívida e o controlo democrático do poder económico; A repartição da riqueza entre trabalho e capital).

Pelos palcos da Fundação Gulbenkian desfilaram noventa congressistas a reclamar o direito ao pensamento, à palavra, à acção. As suas comunicações traduziram experiências e aspirações de vida para a sociedade portuguesa, numa clara rejeição do estado a que o País chegou. A reflexão inscreveu matérias tão relevantes como a participação política e o monopólio dos partidos, Estado Social, questão do emprego e desemprego, valor do trabalho, emigração, pobreza, justiça, Europa, dívida pública, corrupção, Forças Armadas e eleição do Presidente da República. Os temas tratados reflectiram as razões de “ruptura e utopia” de cidadãos inconformados e dispostos a combaterem o imobilismo, que publicamente quiseram manifestar-se através do uso do direito à palavra pelos valores de Abril e, assim, exercer a cidadania.

A Comissão Organizadora, coordenada por José Romano, propõe-se editar, oportunamente, as actas do Congresso, com as comunicações apresentadas. Então verificar-se-á o rigor e a cuidada reflexão na abordagem e propostas apresentadas.